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segunda-feira, 23 de março de 2015

Carta para Stella em seu primeiro ano


Filha querida, 

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esta é uma carta que lhe escrevo em muitos dias. Não é possível deixar um relato deste nosso primeiro ano juntas em apenas uma sessão. É preciso voltar ao papel muitas e muitas vezes. Melhor para mim, que passo mais tempo a pensar em você. 

Estamos aqui para celebrar mais um dia 20 de março. É o meu primeiro ano como sua mãe. Neste longo ano, estivemos juntas e ensinamos uma a outra sobre noções que não tínhamos. Mutuamente crescemos. Naturalmente nos tornamos o que somos. Por maiores que fossem os desafios, amar você foi a coisa mais fácil do mundo. 

Dizem que a maternidade nos muda, mas eu não me sinto assim. A maternidade me apurou, legitimou a minha coragem, me fez mais segura das minhas atitudes e opiniões. 

No dia 20 de março de 2014, tive uma lição de coragem. Com uma gravidez de mais de 41 semanas e uma cesariana marcada, fui forte. Afirmei que comigo seria diferente. Com a gente seria diferente. Não poderia ser de outro jeito. Não sabendo o que estava fazendo, fui e fiz. Na noite em que você nasceu, eu me afirmei. Ninguém disse que seria fácil, mas também poucos disseram que seria tão bom. Um parto normal foi só o início da nossa história. No mesmo dia 22 de março, esse que comemoramos agora, nós íamos para casa juntos. Vivemos tudo juntos. 

Atualmente, depois de um ano de vida, você já demonstra que há mão dupla em tudo que sentimos e fazemos. Quando sorri, ri de nós, acorda e nos chama, nos oferece comida, nos dá abraços sinceros, se conforta em nossos abraços. Me lembro de como eu chorei ao te ouvir gargalhar pela primeira vez; de quantas vezes você me fez gargalhar. Nada do que vivemos poderia valer mais a pena. 


Quero sempre estar com você e te acompanhar nos seus passos. Quero que você seja você e prefira tudo o que te toca o coração. Quando estivermos (infelizmente) longe, que não esqueçamos uma da outra e do que vivemos juntas, descobrimos juntas. Que você carregue os meus valores e seja parte do meu legado na vida. Você me pegou num estado de maternidade mais bruto - sem saber de nada, fiz o que soube fazer. O resultado é visível. 

Ao mesmo tempo que tenho pena de que você cresça (porque você é muito fofinha e maravilhosa como está e eu tenho vontade de congelar o tempo e dormir abraçada com você para sempre), é gratificante saber que sempre estaremos juntas. Dizem que passa rápido. O triste é que passa.   

Você vai conhecer todo este amor quando se tornar mãe. Enquanto isso, você vai me amando como sua mãe e eu vou te amando muitão como filha, tá? 

Obrigada por ter vindo tão cedo. Assim passamos mais tempo de nossas vidas juntas.   

Te amo como amei as principais coisas da minha vida. Vivo com você, para você, através de você, por você. 




Mamãe. 


(esta carta foi impressa, assinada e estará guardada para a Stella ler e reler quando quiser)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Há um ano que não durmo


Há um ano que não durmo. Há um ano que vivo mais do que o esperado. De todas as formas de viver, optei por isto. A maternidade é um vício que eu gosto de exercer. Há um ano que não durmo. Nino, brinco, amamento. Mas não durmo. Escrevo, leio, trabalho, produzo, me formo, mas não durmo. No comercial da Ortobom, lá estava a sentença: trate bem o seu colchão, você passa um terço da vida sobre ele. Um terço. Eu? Eu não passo um terço não, obrigada.



Muito se fala sobre o místico sono das mães. O comparam com as fadas e os unicórnios. Ele de fato existe? Pragas são rogadas. Do lado de cá, muito se reclama. Dormir vira um bem precioso, uma moeda de troca. Tudo vira. Um banho longo. Um bom jantar. Dormir é presente de aniversário, férias, etc.
Nego todos os rótulos e lhes apresento a verdade:
eu
gosto
de viver
assim.


Vejam bem, não que não haja cansaço. Há cansaço, e muito. Mas, por outro lado, encontro forças que nunca achei que tivesse. Me obrigo a dormir só pra não quebrar recorde, não virar a noite em claro. Se não tivesse nada para fazer no dia seguinte, acho que assistiria um filme por madrugada.

Sabe o que acontece com uma mãe? Ela se torna resiliente. Só os fortes sobrevivem. Descobri que eu funciono bem dormindo 6 horas por dia e acordando pelo menos uma vez por noite. Senão, já tinha cedido a babás, "técnica" de deixar o bebê chorando caso ele acorde, mandingas, viagens sem a cria, qualquer coisa. 
Estou há 365 noites sem as tais 8h seguidas. Parece chocante quando eu digo, mas na prática não é ruim. Devo estar envelhecendo, mas a causa é justa. Há muitos meses que eu simplesmente acordo sozinha no meio da noite - e eis o relógio biológico mãe-bebê. Às vezes eu acordo e a Stella só acorda um tempo depois.

Descobri que nesse tempo de sono perdido, ganho coisas. Não dormir é psicodélico. Entra-se num estado de superalerta. Me sinto no Clube da Luta, mas sem insônia ou qualquer tipo de sentimento negativo. Quando acordo de noite, penso. Faço planos. Tenho ideias. Aproveito do silêncio.

Houve um tempo no qual eu me estressava por viver assim. Já tentei fazer a Stella dormir um sono regrado - mas olha a maternidade anarquista aí de novo. Convenço-me de que um dia ela vai aprender a dormir por mais de 5h seguidas. Eduquei-a para dormir de noite, e isso faz de nós seres civilizados. Mas não ouso ir além. Já passei boas noites em claro tentando seguir técnicas de livr... por que estou fazendo isso?

No aniversário da Stella (20 de março), comemoro: o meu primeiro ano como mãe, o primeiro aniversário do meu bebê, um ano de amamentação, um ano sem dormir uma noite inteira. Se eu ligo? Not at all.

E digo: filhos são ótimos remédios para insônia, dramas paralelos desnecessários, preguiça e falta de produtividade/má gestão própria.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tem uma mãe no BBB

Vocês assistem o BBB? Já assistiram? Sabem do que se trata? Pois é, eu assisto diariamente. Assisto porque pessoas são sempre interessantes. Assim como sempre leio os 50 fatos de vocês, quero saber mais sobre pessoas. O que fazem, como vivem, como se relacionam.

No dia da mulher de 2015, uma coisa diferente aconteceu no BBB: uma participante decidiu sair do jogo. Isso já aconteceu antes, mas nunca tendo percorrido um caminho tão longo. De um lado, vemos Tamires - paulista, 24 anos, cirurgiã dentista, chorona, e mãe - muito emocionada, dizendo que estava feliz em sair, que sentia saudade de casa, de sua filha de 3 anos, que não estava sendo ela mesma. Do outro lado, vemos a Globo puta da vida. Pelo jeito, "desistir" do BBB depois de toda aquela seleção de candidato é altamente frustrante para a produção. Boninho, Bial. Ana Maria Braga estava mais séria hoje do que ultimamente. Um a menos encurta o jogo. Diminui o tempo de patrocínio. É menos voto. É menos programa. É menos dinheiro.

Fiquei muito chocada ao ver o que o Boninho disse para os restantes. Frases como "quem sai é desistente, é perdedor" são muito rudes e desumanas. Sei lá, parecia que ela estava abrindo mão de uma enorme oportunidade. Abrindo mão. Boninho usou palavras como "suicídio de candidato". Gente?!

É que algo estranho acontece conosco; nós, as mães. Para mim, Tamires não é perdedora. Ela apenas optou por manter seus valores - ao ver que eles não estavam sendo exercidos, ela entende que não está satisfeita e decide ficar em paz ao sair da situação. Desperdício de oportunidade? Será? 

Hoje pela manhã, Ana Maria Braga (sim) perguntou, em voz séria e dura, se ela estava decepcionada com o jogo, se havia pensado que seria diferente. Tamires nos mostra (acho que pela primeira vez) um lado humano daquilo tudo. Ao invés de festas, bebedeira, piscina e academia de graça, dentre outros, Tamires sentiu a ausência de sua família, a pressão dos demais concorrentes, o clima pesado de um jogo de eliminação de pessoas. 

Aprendam: tudo na vida tem um preço.

Enquanto mãe, o que eu não consigo entender é: o que há de errado? Isso é parte de ser mãe. A partir do que se torna "mãe", nenhum momento que não é compartilhado é completo. Um pedaço de nós se vai a cada distância. Se ganhamos e não estamos próximos aos filhos, a vitória jamais será completa. Pode parecer pouco ficar três meses longe de um filho. Mas, acreditem, eu (por enquanto) não ficaria nem três dias. A saída não foi somente por isso, mas com certeza absoluta esse fato pesou. Pode ser que outra candidata com um filho menor quisesse ir até a final com garra - no caso de Tamires, não. E tudo bem, obrigado.


A Tamires não ganhou R$1,5 milhão, mas ganhou a presença de sua filha quando sentiu que não aguentava mais ficar longe dela. O que há de errado nisso? Ser mãe é ganhar mais humanidade. As pessoas vêm antes das coisas. No polêmico dia da mulher, isso foi discutido: geralmente são as mulheres que abrem mão de carreiras, bons empregos e super oportunidades pelos filhos. Às vezes abrimos mesmo. Se abrimos, é de coração e, mesmo sentindo a perda destas demais coisas, preferimos abrir do que se perder de um sentimento que é tão importante. É duro decidir e "desistir" das oportunidades, mas há algo de mais especial que acaba valendo a pena. 

E dica: vamos parar com essa de acusação de desistência. Todos são livres para mudar suas trajetórias. Eu já ouvi esse discurso antes e ele me mostra que há muito a ser mudado. Mudar de trajetória não é desistir, é se reinventar. Não só as mães deveriam poder abrir mão das coisas que não gostam. Todos deveriam poder.

domingo, 1 de março de 2015

A Maternidade Anarquista

Hoje fui acordada com uma chuva de comentários negativos nos grupos de maternidade que sigo no Facebook. Todos atacavam um post do Hospital Israelita Albert Einstein, de SP, que, contrariamente ao que diz a OMS, instruía a não amamentar assim que a criança chorasse (pois isso daria a ideia de que amamentação seria ligada ao carinho, não apenas à alimentação), ensinar a criança a não dormir no quarto dos pais e não embalar para dormir. O Hospital afirmava que, ao fazer isso, evitava-se a criação de hábitos ruins, difíceis de substituir. O negócio foi tão ruim que até foi tirado do ar.

Tirando todo o absurdo retrógrado que isso é (é criminoso, eu diria), a nível de Dr. De Lamare, fiquei pensando: quantas mães acreditam nisso? Quantas grávidas desinformadas caem nessa balela e fazem isso com os filhos? Quantos bebês sentem fome e necessidade de carinho e não são correspondidos? Você faria isso com o seu bebê?

Durante a minha vida poucas vezes pude exercer exatamente o que eu quis. Deixei de fazer ou fiz tantas coisas por indicação, pedido ou ordem dos outros. Porque aquilo era o "certo", o socialmente aceito, o que não pegaria mal. Tudo bem, né. É necessário. Quando criança, quando adolescente, agora que já sou mais adulta. Sigo fazendo inúmeras coisas que são as mais indicadas ou recomendadas. Por que, meu Deus? Se elas vão contra o que eu quero ou imagino ser o melhor pra mim, por que ainda as faço?? Oh, o conflito interno.

Apesar de tudo, encontrei um espaço aonde a hierarquia não existe. Aonde eu posso fazer o que acredito ser melhor porque compete a mim decidir. Contrariando livros, médicos, hospitais menas, outras mães, minha mãe, e tantas outras entidades de pressão e poder... eis que veio a maternidade. 






Crio uma menina há quase um ano à moda da casa. Amamento o quanto eu quiser, dormimos na cama com ela, não demos chupeta, ela toma banho de chuveiro comigo, ela veste preto/cinza/azul (cor de menino? Você acha?) e nunca usou esses trecos perigosos para bebês (tipo presilhas ou faixas), ela já viajou de avião e de ônibus, nunca dei complemento de leite, dorme tarde e acorda tarde, não ensinamos a ficar um tempão presa no carrinho, hoje em dia come até no meu colo (e não necessariamente na cadeira-trambolho), não comeu antes dos seis meses, nunca comeu açúcar, fica no colo SIM, é embalada SIM, foi parto normal SIM, não faria cesariana por escolha. Ela é criada com muito amor e apego. Queremos que ela seja uma adulta com confiança para viver sua vida bem, e por isso garantimos base para tal. 


Crio minha filha com o que para nós parece o mais certo. Não é o que estava nos livros, ou o que o pediatra disse, ou o que fulana ou fulano falou que fez e deu super certo. No máximo me guio pela OMS. De resto, temos confiança e seguimos o que o nosso instinto diz. E o feedback da Stella, que anda, fala algumas palavrinhas, é super comunicativa e simpática, só chora de sono, nunca teve um resfriado e fica bem com tantas pessoas que não eu ou o pai nos mostra que por enquanto dá certo (e quantas coisas são classicamente feitas, mas estão erradas?).


Queria eu ter coragem para guiar outros assuntos inteiramente dessa forma. A vida vai dizer se estivemos certos - e em que ponto de vista.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Porque ainda amamento

É fato: daqui a pouco, vai ficar muito "questionável" a opção de ainda estar amamentando minha filha, que hoje tem 10 meses. Questionável para os outros - para mim, é muito lógico.

Existe um peso cultural muito grande sobre a amamentação. Ele começa a se projetar sobre as mães que não amamentam e carregam secretamente a culpa (que pode ser pequena ou grande) de não fazê-lo. Então, enquanto você está lutando para tentar amamentar e fazer o melhor para o seu filho, naquele começo onde tudo é dor-novidade-cansaço-palpites desagradáveis, há uma pressão para que você amamente. É uma pressão quase geográfica - minha mãe fala que só as mães de terceiro mundo amamentam com tanto êxito. Nos EUA, onde a cultura é peitocêntrica e um par de seios fartos tem o mesmo impacto que a bunda da Paolla Oliveira por aqui, é fácil ver mamadeiras no primeiro ou segundo mês de vida dos bebês. Amamentar em público? Nem pensar, mães americanas amamentam no banheiro.

Até os 4 meses da Stella, eu escutava uma pergunta recorrente: "você ainda está amamentando?". Depois de muito me perguntar sobre essa pergunta (uai, não é óbvio?), me dei conta de que essa era a maneira mais educada de saber sobre o processo natural da amamentação. Sim, amamento. O feedback dos outros era positivo - que bom, está certo.

Seguimos os 6 meses de amamentação exclusiva. É difícil e exige muita dedicação (além de presença quase constante ao lado da minha filha), mas passou. Passou, como tudo passa. Só de saber que em 2012 a média de amamentação brasileira era de 42 dias (!!), fico feliz de termos conseguido e com muita alegria.

Entretanto, sei que estamos chegando a um ponto crítico. Quando o bebê deixa de ser uma criaturinha indefesa e vira uma criança autônoma? Stella já anda. Quando vão passar a me olhar torto? Minha mãe já fala que "está de bom tamanho". Toda aquela cultura que pregava a amamentação se dissipa com o tempo. Eu fui amamentada até os 9 meses e o Guilherme, até os 8. Acho que a geração passada foi "menos" amamentada, num geral. Para as mães dessa geração, isso poderia ser um tabu. O mito da dependência prolongada, da falta de vida própria (é), do bebê ficar mais "bobo" e menos independente...



E quanto a nós? O que nós achamos?

A considerar que:
1. O aleitamento deve se fazer até os 2 anos de qualquer criança, seja de leite materno ou qualquer outro que não o de vaca. Consideremos que eu decida desmamar a Stella hoje. Consideremos que uma lata de leite artificial - que não oferece imunidade, que é menos saudável, que às vezes contém açúcar e um monte de químicos - custe no mínimo R$20. Façam as contas. Pensem que até hoje não compramos um pacote de fraldas (obrigada, super chá) e nenhuma lata de leite. Até que bebês não são assim tão caros como todo mundo dizia...

2. Eu até hoje não menstruei e não uso pílula. Demais, né? A livre demanda de leite faz com que eu não tenha que passar por essa chatice mensal desde o meio de 2013. Ao mesmo tempo, continuo emagrecendo. Hoje me pesei num médico de exame admissional e estava com 45kg - quando falei que era por conta de livre demanda de leite, ele fez uma cara... hahaha

3. Dizem que amamentar cansa, mas, apesar de não dormir uma noite inteira há um ano, não me sinto tão desperta há muito tempo. Não me sinto sugada ou enfraquecida. Sinto como se um líquido mágico da saúde corresse em minhas veias, esse que é revertido em leite. Há quantos meses não fico doente... Por ele mantenho hábitos saudáveis desde a gravidez. É gratificante.

4. Tenho certeza que estou provendo saúde à Stella e principalmente a manutenção desse vínculo - quem já amamentou, sabe a delícia que é. É um momento que não volta. Amamentarei enquanto ela quiser.

E pela Stella? Tá ruim de desmamar. Nenhuma perspectiva de desistência. Pelo jeito como nos relacionamos, essa love story vai longe. O jeito como ela me procura durante a noite; como acorda como um passarinho, de olhos fechados, chorinho solto e boca aberta; ela quer o que é mais querido para nós. Melhor pra mim e para ela.
O Ministério da Saúde recomenda o aleitamento materno até os 2 anos ou mais. No que depender de nós duas...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ser mãe em tempos de selfie

Se eu tivesse.... 
Se eu tivesse um somatório de fatores que agora não tenho (entre elas, real inspiração), pintaria uma frase que vi um dia num quadrinho de MDF: “Os filhos aprendem com o que somos quando ninguém nos vê”. A frase é tão boa e tão carregada de significados atualmente que eu seria capaz de pintá-la num quadrinho e pendurá-lo na minha casa, em algum lugar onde não seria esquecido.

Pensemos: o que somos quando ninguém nos vê? Quando estamos diante de nossos filhos, sejam eles pequenos ou grandes, ou nós ocupados ou desocupados, pacientes ou impacientes, afim de conversa, interação, ou apenas querendo ser transparente...? 

A condição de mãe faz de mim (e espero que de todas as mães) um ser que, apesar de desaparecida para tantos outros (os amigos, especialmente), nunca mais poderá ser transparente. Assinei um contrato de presença infinito com a minha filha e para ela tenho que estar sempre presente, visível, à distância de um chamado. Enquanto for um bebê ou até uma criança pequena, minha presença no maior tempo possível é determinante para o seu desenvolvimento, suas relações com os outros e consigo mesma. 

Bem, ser transparente parece ser um mero conflito interno meu. Muito pelo contrário, o que todos querem atualmente passa muito por ser visto. O tempo todo. O que fulano está fazendo? Basta ir no Facebook e descubro. Descubro onde trabalha, com quem anda, os lugares que frequenta, entre tantas e tantas outras informações na beira do dispensável e até do perigoso.

Mas tudo bem. Quem não faz assim hoje, né? Quem não é visto não é lembrado. Para ser legal e ter mais amigos, parece quase necessário que estejamos conectados o tempo todo. E além – que sejamos vistos, fazendo de nossas vidas novelas para qualquer público que seja. 

É assim com os jovens. É assim com tantas pessoas mais velhas que conheço. Suas memórias passam a estar ligadas diretamente ao que foi para o Facebook, para o Instagram, para o Twitter (e a subjetividade? Será que essa gente faz diário?). Tudo bem, características do século. Essa é a cultura do nosso tempo. 

Acontece que às vezes viramos mães (é, é bem assim). O que fazemos com todo o narcisismo de nosso tempo? Ué, incluímos nossos filhos! Passando por todas as questões de segurança (que muitas vezes não pensamos), a verdade é que simplesmente precisamos expor nossas vidas. E por quê? Primeiramente: se a maternidade se refere a um natural processo de internalização de novos valores e de certo “sumiço” para os outros, o fato de vivermos nesse tempo tão narcísico permite que nos exponhamos mesmo sem nem sair de casa. É um sinal de que está tudo bem. – Não vejo fulana há um ano, mas o filho dela está uma gracinha no Instagram, até já anda! Permitir que tanta gente acompanhe nossa vida à distância dá uma ideia de que está tudo indo bem. 


O segundo fator: meu filho é tão lindo! Preciso mostrá-lo ao mundo! Se ele balbucia, preciso filmá-lo e colocar online, as pessoas vão ficar loucas! É. Exposição demais? Há quem diga, mas entre gatinhos, cachorrinhos e bebês, mal preciso dizer quem é o melhor e o mais curtido.

Eu faço isso. Vocês devem fazer isso. Se não têm filhos, provavelmente o fariam do mesmo jeito que eu. 


Acontece que há um grande espaço entre o que somos, o que vemos dos outros, o que os outros veem de nós, e o que queremos ser. Isso não nos revela? A necessidade de mostrar que está tudo ótimo-perfeito-cor-de-rosa não pode esconder algumas coisas? Fico muitíssimo satisfeita com o fato da Stella já estar quase andando aos 10 meses, de ser super comunicativa, de nunca ter tido problemas de saúde, de ainda mamar no peito, de ser filha de um parto normal, etc, etc. Entretanto, me pergunto o quanto disso é orgulho próprio, autoafirmação (como vocês sabem, fui mãe aos 22 e realmente não esperava ser mãe aos 22. Então, a cada vitória ou simples normalidade da Stella, comemoro para mim e para os outros. Muitas vezes me julguei incapaz de ensinar uma criança a fazer qualquer coisa), resposta aos outros, e quanto disso é genuíno – eu, feliz, tentando passar boas lições ao próximo sem esperar nada em troca. 

E confesso: fico culpada em sair, trabalhar muito, não dar o melhor do melhor para Stella. 
Enquanto escrevo esse texto, estou culpada por não estar olhando para a minha filha (que está brincando na minha frente) tanto quanto olho para o laptop. Mas confesso isso aqui, no blog, num espaço bem menos visado que o Facebook ou o Instagram. Enquanto isso, no Instagram, vejam fotos da Stella sendo o bebê mais lindo, fofo e esperto do universo. 

Fica a pergunta: Narciso postaria uma selfie ou basta saber que ele é demais? O quanto precisamos mostrar de nós mesmos querendo nos afirmar?
E quando ninguém pode te ver, o que você é?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como (não) amar o (meu) corpo (pós-parto)

Lemos recentemente o relato de Carolinie Figueiredo acerca da aceitação do corpo pós-parto. O texto, como muitos outros que leio, me fez pensar. Mas não consigo estar insatisfeita. Por mais que eu não esteja me recuperando de um segundo parto (o qual acredito que o impacto deve ser ainda maior), continuo erguendo as mãos para o céu por ter o meu corpo comigo.
Quando eu estava grávida, ficava buscando encontrar uma definição visual para a infinidade de coisas que eu sentia. Estar grávida é algo tão poderoso e tão forte que em poucos momentos eu consegui ficar à vontade. Não dava.

O CARACOL
Inicialmente, me sentia vigiada. A gravidez nos acende alertas que nunca se apagam. De repente, o meu corpo - aquele que dormia mal, comia mal, trabalhava e estudava, saía, viajava, andava de bicicleta, aquele que estava lá para ser usado e abusado, porque é isso que nós, jovens, fazemos - deixou de pertencer a mim. Só a mim. O meu corpo virou um lugar de preservação. Virou templo de silêncio e disciplina. Qualquer deslize era motivo de culpa. Tive que me policiar para tomar café da manhã diariamente, para não abusar do sono ou da fome, para não me expor a ambientes, hábitos e odores, para não fazer exercícios demais, para não fazer exercícios de menos. Meu corpo era lar de uma outra pessoa. Deveria ser observado e cuidado. Era como se eu tivesse perdido a liberdade sobre uma das poucas coisas que era realmente minha. A imagem que me vinha à cabeça era de um caracol, que carrega em sua concha todo o mundo e verdadeiramente tudo o que precisa. Alguém entrou dentro da concha desse caracol. Alguém mexeu em sua casa. Por mais que o caracol ainda estivesse ali, como ele se relacionaria com a sua casa?

COMO SER VELHO
Com o tempo, a sensação deixou de ser só emocional e passou a ser física. O corpo crescia semana após semana. Quando eu engravidei, aos 21 anos, pesava aproximadamente 48kg. Era leve como uma pluma e ágil como o vento. Entretanto, a gravidez me conferiu um peso sutil como um elefante que me fez mais lenta, cautelosa. "Quando você é velho, tudo vai ficando inacessível". A frase de um tio meu coube como uma luva para os meses que passavam. As coisas que antes fazia sem nem pensar foram ficando fora de mão. Ao final dos nove meses, até me abaixar era difícil. Deitar de bruços. Correr. Andar com rapidez ou um mínimo de graça. Ganhei apenas 9kg. Com eles, o peso de uma enorme responsabilidade.

CARREGANDO UM DIAMANTE
Aos 4 meses de gravidez, fui assaltada. Desses assaltos comuns que nós, cariocas, estamos infelizmente acostumados. No início da onda atual de pivetes-arrastões-cordões, um menino puxou a minha corrente. Eram nove horas da noite e eu e Guilherme estávamos no centro da cidade, esperando para atravessar a rua. Vi três moleques se aproximando. Nenhum deles deveria ter mais do que dez anos de idade. Os vi, mas por um momento duvidei que me fariam mal. Eram crianças. Crianças. Como aquela que eu carregava. Baixei os olhos. No segundo seguinte, leves mãos me vieram ao colo e me tomaram um cordão com um pingente, um Agnus Dei. Naquela noite, não só perdi meu cordão. Perdi também minha invencibilidade. Até ali, eu era a garota que andava-em-todos-os-lugares-sozinha-de-noite. Nada nunca tinha me acontecido. Entretanto, dali para frente, me dei conta de como eu era vulnerável. Meu coração se acelerou. Lembrei da minha barriga. Guilherme saiu correndo atrás do moleque. Eu também corri, mesmo sabendo que não deveria correr. Ou correr de noite num lugar perigoso. Ou ter taquicardia. Desse dia em diante, nunca mais tive sossego no Rio de Janeiro. Não deveria mais me expor a situações como aquela. Ora, sou mãe. Nada deve acontecer contra a minha filha. Nada deve acontecer contra mim, já que minha filha depende de mim.

VIGIADA PELOS OUTROS
Mais ao final da gravidez, a vigia passou a ser interna e externa. Todos tomam conta de uma grávida. Eu não queria que ninguém tomasse conta de mim. Tá comendo bem? Dormindo bem? Aproveita, você nunca mais vai dormir. Por que você está tomando sol? Ou não está? Por que está comendo doces? Por que está bebendo refrigerante? Não, não curto ser notada, obrigado.

Ao final, eu apenas queria minha filha no meu colo e meu corpo de volta. Sentia falta de ser magra, ágil e bonita. Deus, eu me sentia tão feia (lembrando que 50% do que faz uma pessoa ser feia está em sua cabeça). Tão pouco feminina. Era um poço de cansaço e ansiedade. Rezava para que o dia seguinte fosse logo o dia de parir. Adoraria parir! Parir me parecia bem menos cansativo e frustrante do que carregar aquele barrigão.
E foi, realmente. Parir é lindo.



 Em seguida, lembro-me de três específicos momentos:
Abraçar o Guilherme pela primeira vez sem barriga; 
Deitar-me de bruços pela primeira vez sem barriga; 
Ver-me no espelho uma semana depois do parto, magra novamente.

 Lembro-me do conforto, amor e até lascividade desses três momentos. Sim. Eu era eu novamente.

Tenho um momento guardado, um momento que tenho todos os dias: Ter a minha filha no colo; abraçá-la, beijá-la, amamentá-la.


 Por mais que meu corpo não esteja 100% no lugar (ainda sinto falta de coxas maiores e minha barriga definitivamente mudou), ele é meu. Todo meu para usar e abusar. Todo meu para que eu faça com ele o que achar que deve ser feito. E isso não tem preço e não merece queixa. Se me queixo, é charme. Só eu me habito.