Curta no Facebook!

domingo, 1 de março de 2015

A Maternidade Anarquista

Hoje fui acordada com uma chuva de comentários negativos nos grupos de maternidade que sigo no Facebook. Todos atacavam um post do Hospital Israelita Albert Einstein, de SP, que, contrariamente ao que diz a OMS, instruía a não amamentar assim que a criança chorasse (pois isso daria a ideia de que amamentação seria ligada ao carinho, não apenas à alimentação), ensinar a criança a não dormir no quarto dos pais e não embalar para dormir. O Hospital afirmava que, ao fazer isso, evitava-se a criação de hábitos ruins, difíceis de substituir. O negócio foi tão ruim que até foi tirado do ar.

Tirando todo o absurdo retrógrado que isso é (é criminoso, eu diria), a nível de Dr. De Lamare, fiquei pensando: quantas mães acreditam nisso? Quantas grávidas desinformadas caem nessa balela e fazem isso com os filhos? Quantos bebês sentem fome e necessidade de carinho e não são correspondidos? Você faria isso com o seu bebê?

Durante a minha vida poucas vezes pude exercer exatamente o que eu quis. Deixei de fazer ou fiz tantas coisas por indicação, pedido ou ordem dos outros. Porque aquilo era o "certo", o socialmente aceito, o que não pegaria mal. Tudo bem, né. É necessário. Quando criança, quando adolescente, agora que já sou mais adulta. Sigo fazendo inúmeras coisas que são as mais indicadas ou recomendadas. Por que, meu Deus? Se elas vão contra o que eu quero ou imagino ser o melhor pra mim, por que ainda as faço?? Oh, o conflito interno.

Apesar de tudo, encontrei um espaço aonde a hierarquia não existe. Aonde eu posso fazer o que acredito ser melhor porque compete a mim decidir. Contrariando livros, médicos, hospitais menas, outras mães, minha mãe, e tantas outras entidades de pressão e poder... eis que veio a maternidade. 






Crio uma menina há quase um ano à moda da casa. Amamento o quanto eu quiser, dormimos na cama com ela, não demos chupeta, ela toma banho de chuveiro comigo, ela veste preto/cinza/azul (cor de menino? Você acha?) e nunca usou esses trecos perigosos para bebês (tipo presilhas ou faixas), ela já viajou de avião e de ônibus, nunca dei complemento de leite, dorme tarde e acorda tarde, não ensinamos a ficar um tempão presa no carrinho, hoje em dia come até no meu colo (e não necessariamente na cadeira-trambolho), não comeu antes dos seis meses, nunca comeu açúcar, fica no colo SIM, é embalada SIM, foi parto normal SIM, não faria cesariana por escolha. Ela é criada com muito amor e apego. Queremos que ela seja uma adulta com confiança para viver sua vida bem, e por isso garantimos base para tal. 


Crio minha filha com o que para nós parece o mais certo. Não é o que estava nos livros, ou o que o pediatra disse, ou o que fulana ou fulano falou que fez e deu super certo. No máximo me guio pela OMS. De resto, temos confiança e seguimos o que o nosso instinto diz. E o feedback da Stella, que anda, fala algumas palavrinhas, é super comunicativa e simpática, só chora de sono, nunca teve um resfriado e fica bem com tantas pessoas que não eu ou o pai nos mostra que por enquanto dá certo (e quantas coisas são classicamente feitas, mas estão erradas?).


Queria eu ter coragem para guiar outros assuntos inteiramente dessa forma. A vida vai dizer se estivemos certos - e em que ponto de vista.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Porque ainda amamento

É fato: daqui a pouco, vai ficar muito "questionável" a opção de ainda estar amamentando minha filha, que hoje tem 10 meses. Questionável para os outros - para mim, é muito lógico.

Existe um peso cultural muito grande sobre a amamentação. Ele começa a se projetar sobre as mães que não amamentam e carregam secretamente a culpa (que pode ser pequena ou grande) de não fazê-lo. Então, enquanto você está lutando para tentar amamentar e fazer o melhor para o seu filho, naquele começo onde tudo é dor-novidade-cansaço-palpites desagradáveis, há uma pressão para que você amamente. É uma pressão quase geográfica - minha mãe fala que só as mães de terceiro mundo amamentam com tanto êxito. Nos EUA, onde a cultura é peitocêntrica e um par de seios fartos tem o mesmo impacto que a bunda da Paolla Oliveira por aqui, é fácil ver mamadeiras no primeiro ou segundo mês de vida dos bebês. Amamentar em público? Nem pensar, mães americanas amamentam no banheiro.

Até os 4 meses da Stella, eu escutava uma pergunta recorrente: "você ainda está amamentando?". Depois de muito me perguntar sobre essa pergunta (uai, não é óbvio?), me dei conta de que essa era a maneira mais educada de saber sobre o processo natural da amamentação. Sim, amamento. O feedback dos outros era positivo - que bom, está certo.

Seguimos os 6 meses de amamentação exclusiva. É difícil e exige muita dedicação (além de presença quase constante ao lado da minha filha), mas passou. Passou, como tudo passa. Só de saber que em 2012 a média de amamentação brasileira era de 42 dias (!!), fico feliz de termos conseguido e com muita alegria.

Entretanto, sei que estamos chegando a um ponto crítico. Quando o bebê deixa de ser uma criaturinha indefesa e vira uma criança autônoma? Stella já anda. Quando vão passar a me olhar torto? Minha mãe já fala que "está de bom tamanho". Toda aquela cultura que pregava a amamentação se dissipa com o tempo. Eu fui amamentada até os 9 meses e o Guilherme, até os 8. Acho que a geração passada foi "menos" amamentada, num geral. Para as mães dessa geração, isso poderia ser um tabu. O mito da dependência prolongada, da falta de vida própria (é), do bebê ficar mais "bobo" e menos independente...



E quanto a nós? O que nós achamos?

A considerar que:
1. O aleitamento deve se fazer até os 2 anos de qualquer criança, seja de leite materno ou qualquer outro que não o de vaca. Consideremos que eu decida desmamar a Stella hoje. Consideremos que uma lata de leite artificial - que não oferece imunidade, que é menos saudável, que às vezes contém açúcar e um monte de químicos - custe no mínimo R$20. Façam as contas. Pensem que até hoje não compramos um pacote de fraldas (obrigada, super chá) e nenhuma lata de leite. Até que bebês não são assim tão caros como todo mundo dizia...

2. Eu até hoje não menstruei e não uso pílula. Demais, né? A livre demanda de leite faz com que eu não tenha que passar por essa chatice mensal desde o meio de 2013. Ao mesmo tempo, continuo emagrecendo. Hoje me pesei num médico de exame admissional e estava com 45kg - quando falei que era por conta de livre demanda de leite, ele fez uma cara... hahaha

3. Dizem que amamentar cansa, mas, apesar de não dormir uma noite inteira há um ano, não me sinto tão desperta há muito tempo. Não me sinto sugada ou enfraquecida. Sinto como se um líquido mágico da saúde corresse em minhas veias, esse que é revertido em leite. Há quantos meses não fico doente... Por ele mantenho hábitos saudáveis desde a gravidez. É gratificante.

4. Tenho certeza que estou provendo saúde à Stella e principalmente a manutenção desse vínculo - quem já amamentou, sabe a delícia que é. É um momento que não volta. Amamentarei enquanto ela quiser.

E pela Stella? Tá ruim de desmamar. Nenhuma perspectiva de desistência. Pelo jeito como nos relacionamos, essa love story vai longe. O jeito como ela me procura durante a noite; como acorda como um passarinho, de olhos fechados, chorinho solto e boca aberta; ela quer o que é mais querido para nós. Melhor pra mim e para ela.
O Ministério da Saúde recomenda o aleitamento materno até os 2 anos ou mais. No que depender de nós duas...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ser mãe em tempos de selfie

Se eu tivesse.... 
Se eu tivesse um somatório de fatores que agora não tenho (entre elas, real inspiração), pintaria uma frase que vi um dia num quadrinho de MDF: “Os filhos aprendem com o que somos quando ninguém nos vê”. A frase é tão boa e tão carregada de significados atualmente que eu seria capaz de pintá-la num quadrinho e pendurá-lo na minha casa, em algum lugar onde não seria esquecido.

Pensemos: o que somos quando ninguém nos vê? Quando estamos diante de nossos filhos, sejam eles pequenos ou grandes, ou nós ocupados ou desocupados, pacientes ou impacientes, afim de conversa, interação, ou apenas querendo ser transparente...? 

A condição de mãe faz de mim (e espero que de todas as mães) um ser que, apesar de desaparecida para tantos outros (os amigos, especialmente), nunca mais poderá ser transparente. Assinei um contrato de presença infinito com a minha filha e para ela tenho que estar sempre presente, visível, à distância de um chamado. Enquanto for um bebê ou até uma criança pequena, minha presença no maior tempo possível é determinante para o seu desenvolvimento, suas relações com os outros e consigo mesma. 

Bem, ser transparente parece ser um mero conflito interno meu. Muito pelo contrário, o que todos querem atualmente passa muito por ser visto. O tempo todo. O que fulano está fazendo? Basta ir no Facebook e descubro. Descubro onde trabalha, com quem anda, os lugares que frequenta, entre tantas e tantas outras informações na beira do dispensável e até do perigoso.

Mas tudo bem. Quem não faz assim hoje, né? Quem não é visto não é lembrado. Para ser legal e ter mais amigos, parece quase necessário que estejamos conectados o tempo todo. E além – que sejamos vistos, fazendo de nossas vidas novelas para qualquer público que seja. 

É assim com os jovens. É assim com tantas pessoas mais velhas que conheço. Suas memórias passam a estar ligadas diretamente ao que foi para o Facebook, para o Instagram, para o Twitter (e a subjetividade? Será que essa gente faz diário?). Tudo bem, características do século. Essa é a cultura do nosso tempo. 

Acontece que às vezes viramos mães (é, é bem assim). O que fazemos com todo o narcisismo de nosso tempo? Ué, incluímos nossos filhos! Passando por todas as questões de segurança (que muitas vezes não pensamos), a verdade é que simplesmente precisamos expor nossas vidas. E por quê? Primeiramente: se a maternidade se refere a um natural processo de internalização de novos valores e de certo “sumiço” para os outros, o fato de vivermos nesse tempo tão narcísico permite que nos exponhamos mesmo sem nem sair de casa. É um sinal de que está tudo bem. – Não vejo fulana há um ano, mas o filho dela está uma gracinha no Instagram, até já anda! Permitir que tanta gente acompanhe nossa vida à distância dá uma ideia de que está tudo indo bem. 


O segundo fator: meu filho é tão lindo! Preciso mostrá-lo ao mundo! Se ele balbucia, preciso filmá-lo e colocar online, as pessoas vão ficar loucas! É. Exposição demais? Há quem diga, mas entre gatinhos, cachorrinhos e bebês, mal preciso dizer quem é o melhor e o mais curtido.

Eu faço isso. Vocês devem fazer isso. Se não têm filhos, provavelmente o fariam do mesmo jeito que eu. 


Acontece que há um grande espaço entre o que somos, o que vemos dos outros, o que os outros veem de nós, e o que queremos ser. Isso não nos revela? A necessidade de mostrar que está tudo ótimo-perfeito-cor-de-rosa não pode esconder algumas coisas? Fico muitíssimo satisfeita com o fato da Stella já estar quase andando aos 10 meses, de ser super comunicativa, de nunca ter tido problemas de saúde, de ainda mamar no peito, de ser filha de um parto normal, etc, etc. Entretanto, me pergunto o quanto disso é orgulho próprio, autoafirmação (como vocês sabem, fui mãe aos 22 e realmente não esperava ser mãe aos 22. Então, a cada vitória ou simples normalidade da Stella, comemoro para mim e para os outros. Muitas vezes me julguei incapaz de ensinar uma criança a fazer qualquer coisa), resposta aos outros, e quanto disso é genuíno – eu, feliz, tentando passar boas lições ao próximo sem esperar nada em troca. 

E confesso: fico culpada em sair, trabalhar muito, não dar o melhor do melhor para Stella. 
Enquanto escrevo esse texto, estou culpada por não estar olhando para a minha filha (que está brincando na minha frente) tanto quanto olho para o laptop. Mas confesso isso aqui, no blog, num espaço bem menos visado que o Facebook ou o Instagram. Enquanto isso, no Instagram, vejam fotos da Stella sendo o bebê mais lindo, fofo e esperto do universo. 

Fica a pergunta: Narciso postaria uma selfie ou basta saber que ele é demais? O quanto precisamos mostrar de nós mesmos querendo nos afirmar?
E quando ninguém pode te ver, o que você é?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como (não) amar o (meu) corpo (pós-parto)

Lemos recentemente o relato de Carolinie Figueiredo acerca da aceitação do corpo pós-parto. O texto, como muitos outros que leio, me fez pensar. Mas não consigo estar insatisfeita. Por mais que eu não esteja me recuperando de um segundo parto (o qual acredito que o impacto deve ser ainda maior), continuo erguendo as mãos para o céu por ter o meu corpo comigo.
Quando eu estava grávida, ficava buscando encontrar uma definição visual para a infinidade de coisas que eu sentia. Estar grávida é algo tão poderoso e tão forte que em poucos momentos eu consegui ficar à vontade. Não dava.

O CARACOL
Inicialmente, me sentia vigiada. A gravidez nos acende alertas que nunca se apagam. De repente, o meu corpo - aquele que dormia mal, comia mal, trabalhava e estudava, saía, viajava, andava de bicicleta, aquele que estava lá para ser usado e abusado, porque é isso que nós, jovens, fazemos - deixou de pertencer a mim. Só a mim. O meu corpo virou um lugar de preservação. Virou templo de silêncio e disciplina. Qualquer deslize era motivo de culpa. Tive que me policiar para tomar café da manhã diariamente, para não abusar do sono ou da fome, para não me expor a ambientes, hábitos e odores, para não fazer exercícios demais, para não fazer exercícios de menos. Meu corpo era lar de uma outra pessoa. Deveria ser observado e cuidado. Era como se eu tivesse perdido a liberdade sobre uma das poucas coisas que era realmente minha. A imagem que me vinha à cabeça era de um caracol, que carrega em sua concha todo o mundo e verdadeiramente tudo o que precisa. Alguém entrou dentro da concha desse caracol. Alguém mexeu em sua casa. Por mais que o caracol ainda estivesse ali, como ele se relacionaria com a sua casa?

COMO SER VELHO
Com o tempo, a sensação deixou de ser só emocional e passou a ser física. O corpo crescia semana após semana. Quando eu engravidei, aos 21 anos, pesava aproximadamente 48kg. Era leve como uma pluma e ágil como o vento. Entretanto, a gravidez me conferiu um peso sutil como um elefante que me fez mais lenta, cautelosa. "Quando você é velho, tudo vai ficando inacessível". A frase de um tio meu coube como uma luva para os meses que passavam. As coisas que antes fazia sem nem pensar foram ficando fora de mão. Ao final dos nove meses, até me abaixar era difícil. Deitar de bruços. Correr. Andar com rapidez ou um mínimo de graça. Ganhei apenas 9kg. Com eles, o peso de uma enorme responsabilidade.

CARREGANDO UM DIAMANTE
Aos 4 meses de gravidez, fui assaltada. Desses assaltos comuns que nós, cariocas, estamos infelizmente acostumados. No início da onda atual de pivetes-arrastões-cordões, um menino puxou a minha corrente. Eram nove horas da noite e eu e Guilherme estávamos no centro da cidade, esperando para atravessar a rua. Vi três moleques se aproximando. Nenhum deles deveria ter mais do que dez anos de idade. Os vi, mas por um momento duvidei que me fariam mal. Eram crianças. Crianças. Como aquela que eu carregava. Baixei os olhos. No segundo seguinte, leves mãos me vieram ao colo e me tomaram um cordão com um pingente, um Agnus Dei. Naquela noite, não só perdi meu cordão. Perdi também minha invencibilidade. Até ali, eu era a garota que andava-em-todos-os-lugares-sozinha-de-noite. Nada nunca tinha me acontecido. Entretanto, dali para frente, me dei conta de como eu era vulnerável. Meu coração se acelerou. Lembrei da minha barriga. Guilherme saiu correndo atrás do moleque. Eu também corri, mesmo sabendo que não deveria correr. Ou correr de noite num lugar perigoso. Ou ter taquicardia. Desse dia em diante, nunca mais tive sossego no Rio de Janeiro. Não deveria mais me expor a situações como aquela. Ora, sou mãe. Nada deve acontecer contra a minha filha. Nada deve acontecer contra mim, já que minha filha depende de mim.

VIGIADA PELOS OUTROS
Mais ao final da gravidez, a vigia passou a ser interna e externa. Todos tomam conta de uma grávida. Eu não queria que ninguém tomasse conta de mim. Tá comendo bem? Dormindo bem? Aproveita, você nunca mais vai dormir. Por que você está tomando sol? Ou não está? Por que está comendo doces? Por que está bebendo refrigerante? Não, não curto ser notada, obrigado.

Ao final, eu apenas queria minha filha no meu colo e meu corpo de volta. Sentia falta de ser magra, ágil e bonita. Deus, eu me sentia tão feia (lembrando que 50% do que faz uma pessoa ser feia está em sua cabeça). Tão pouco feminina. Era um poço de cansaço e ansiedade. Rezava para que o dia seguinte fosse logo o dia de parir. Adoraria parir! Parir me parecia bem menos cansativo e frustrante do que carregar aquele barrigão.
E foi, realmente. Parir é lindo.



 Em seguida, lembro-me de três específicos momentos:
Abraçar o Guilherme pela primeira vez sem barriga; 
Deitar-me de bruços pela primeira vez sem barriga; 
Ver-me no espelho uma semana depois do parto, magra novamente.

 Lembro-me do conforto, amor e até lascividade desses três momentos. Sim. Eu era eu novamente.

Tenho um momento guardado, um momento que tenho todos os dias: Ter a minha filha no colo; abraçá-la, beijá-la, amamentá-la.


 Por mais que meu corpo não esteja 100% no lugar (ainda sinto falta de coxas maiores e minha barriga definitivamente mudou), ele é meu. Todo meu para usar e abusar. Todo meu para que eu faça com ele o que achar que deve ser feito. E isso não tem preço e não merece queixa. Se me queixo, é charme. Só eu me habito.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Parte IV: Viajar, maternar, vencer

(Feliz sete meses, filha)

O sossego da alma. Novamente estou dentro de um ônibus, na estrada, viajando para algum lugar. Perto ou longe, não importa muito. O importante é viajar. Quando me vejo no reflexo da janela, uma surpresa: tenho um bebê adormecido no meu colo. 

 Há dois anos, num exato outubro, fiz minha primeira viagem com o Guilherme. Fomos para Búzios. Comemos bem, bebemos bem, curtimos Geribá, a Rua das Pedras, o hotel. Somos seres ritualizados. Combinamos que em outubro de 2016 estaremos no mesmo hotel pela terceira vez. 
Amo viajar. Preciso. Vivo num ideal de viajar o bastante para que se torne um hábito e pouco o suficiente para que nunca se perca a emoção. Entretanto, quando engravidei, de novo me disseram que eu não viajaria de novo. Ou tão cedo. Eis. 
Mal posso acreditar que cumpri mais esse âmbito. Aos pessimistas: descobri que não era nada daquilo que vocês diziam. A coisa boa de ter filho (diferente de ter pai, mãe ou marido) é que o filho é COMPLETAMENTE adaptável a mim, ao meu estilo de vida, aos desejos e experiências. Se eu quiser viajar com a minha filha, assim será. 
 Descobri que a minha primeira viagem foi aos 3 anos. Minha mãe ainda disse que eu era corajosa de viajar de ônibus com um bebê de seis meses. Ué! Você só se torna corajoso quando alguém diz que não faria o que você faz.



E como foi? Bom, foi...diferente! Claro que dá mais trabalho do que somente viajar. Pensa-se em alimentação, sono do bebê, se o bebê tá feliz ou incomodado, se está ventando, se está muito sol....... mas foi bem divertido. Ligados o tempo todo (é, não relaxamos tanto), mas felizes. Stella foi de ônibus na ida e na volta e dormiu o tempo todo (nossa grande preocupação era o ônibus), foi à praia, passeou de dia e de noite, esteve conosco nos almoços e passeios. Fomos em trio (eu, minha mãe e Guilherme) justamente para formar pares enquanto o outro estava com a Stella; assim, o casal até conseguiu jantar sozinho (!).  Tudo certo.
 Para ela... tanto faz, desde que esteja de barriga cheia e com o soninho em dia.

 Fiquei muito feliz de ter pensado na viagem, de tê-la promovido e de finalmente ter ido. Foi melhor do que a gente pensava. Stella já tem outras viagens marcadas e vai ser outra viajante - 
como a mãe.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Parte III - Exercitar, maternar, vencer

A vida vai aos poucos voltando ao "normal" - sendo que agora, a noção de normal está diferente, e conta com Stella em casa, mamãe e papai trabalhando, comida que eu fiz, roupa que eu passei, louça que o Guilherme lavou. 
Reconquistei meu trabalho e meu estudo na faculdade e, hoje em dia, tudo em ordem. Entretanto, a vida possui outros âmbitos, âmbitos que eu sentia falta... 
Houve uma época na minha vida em que eu andava de bicicleta todo dia. Senão todo dia, dia sim e dia não. Quando chovia, andava na garagem do prédio. Quando viajava, o corpo sentia. Bicicletar era o meu exercício e minha terapia ocupacional; meu espaço pessoal para pensar e ouvir música, passear, me divertir. Morei em Botafogo a vida toda e, portando minha própria bicicleta, era fácil chegar à Lagoa ou ao Aterro. 
Durante a gravidez, andar de bicicleta é um exercício mais ou menos proibido - na modalidade em que eu praticava, proibido. Andava 6, 8 ou 10 quilômetros em menos de uma hora ou uma hora e meia. Soube que exercício pesado poderia "tirar" oxigênio do bebê, além de me deixar enjoada e ser obviamente estranho andar por aí com barriga. Parei. Pena. A última vez que saí de bike foi em setembro do ano passado. 
Desde que a Stella nasceu, fui voltando aos poucos a andar de bicicleta - infelizmente, em muita correria e sem todo aquele prazer anterior.



 Só que... que coisa. Como a gente se vitimiza à toa, sem precisar.
 Eu achei que, por ser mãe e ter me mudado para Santa Teresa, eu não teria tempo ou espaço para andar de bicicleta tão cedo. Meu corpo de ciclista ficava cada vez mais para trás... minha saúde e exercício...
Bastou pagar dez reais e fazer uma ligação que tudo mudou. O Rio de Janeiro conta com uma coisa esplêndida chamada Bike Rio: as laranjinhas. É se inscrever, pegar uma bicicleta e devolvê-la dentro de uma hora nas centenas de pontos. Ué. Eu saio para trabalhar todo dia. Por que não unir o útil ao agradável, finalmente? Andar de bicicleta todo dia de novo? Sim, é possível! E faz bem :)
 Lição do mês: quando você é mãe, toda brecha é uma oportunidade e cada chance pode virar empreendimento. Ser mãe é uma aula constante de Administração, cadeira de Gestão. Agora é só esperar o corpo voltar ao - normal?

domingo, 7 de setembro de 2014

O agridoce da Introdução Alimentar

Oi! Desculpem pelo tempo sem postar. Engatei num projeto de livro e trabalhar-estudar-escrever-maternar às vezes me esgota o tempo! 

A Stella está com cinco meses e meio. Isso quer dizer que sim, daqui a pouco mais um grande momento vai chegar: a introdução alimentar.
Ao mesmo tempo que é algo aguardado (ver do que a Stella vai gostar mais, entender as mudanças, dar a ela mais autonomia para se alimentar, me "emancipar" parcialmente da tarefa de amamentação exclusiva), percebi com os dias que é algo até um pouco amargo. Tenho feito certa resistência ao assunto. Geralmente sou uma mãe super interessada e curiosa, constantemente antenada em sites, blogs e leituras acerca de todas as novidades. Era até mais no começo (acho que o tempo passa e nos tornamos menos ansiosas e mais intuitivas). Acontece que Stella está a duas semanas de comer  e eu não estou correndo atrás de informação. Por quê?



Eu gosto tanto de amamentar que eu mesma preciso entender que mais esse "laço"vai se perder. Gestei, pari e agora ela deve comer outras comidas, além de leite do peito. E que sentimento agridoce. Ela tem novas necessidades nutricionais e precisa de novos alimentos. E eu? Eu já estou pronta para ter uma bebê "grande" (exagero), que não precisa mais de mim o tempo todo? Mas poxa vida.
Eu sei. Eu sei que ainda vou amamentar até quando a Stella quiser. Sei que agora tudo vai ficar mais "leve" para mim, psicologicamente falando - posso ficar mais tempo na rua, inclusive, coisa que muito me faz falta. Mas, mas, mas... não sei, às vezes eu a abraço e sinto falta daquele bebê pequenininho, que só queria colo e peito o tempo todo. Agora ela já está quase engatinhando. Como o tempo passa!
Garanto que amamentar exige muito mais do que parir, por exemplo, mas é uma vitória deliciosa. Chegarei aos 6 meses da Stella com minhas atividades normais e muito amor de peito. Fico muito feliz de querer e conseguir amamentar, por mais que tenha que me ausentar para trabalhar ou estudar diariamente.
Vamos às bananas, pêras, maçãs e afins (e nada de sucos, por enquanto). Com naturalidade, carinho e animação, mas com um pouquinho de dor no coração - acredito que a maior dor de uma mãe é perceber que sim, eles crescem afinal...